Sobre a Base e a Massa.

*Frank Maciel

Nova Primavera“Apaixonem-se pelo trabalho duro e paciente”.

Zizek, no Occupy Wall Street, em 2011[1].

 

Uma imensa massa protestava em Nova Iorque. Aos seus integrantes, que ocupavam a rua mais poderosa do mundo capitalista, Zizek pediu que se apaixonassem pelo trabalho duro e paciente, em vez de se apaixonarem por si mesmos. O que o filósofo quis dizer?

Creio que ele se referia a uma inclinação nossa – a esquerda radical – que é comum em momentos de ascenso das massas, quando parcela do povo toma as ruas em proporção há muito não vista ou esperada. E o que seria essa inclinação? Julgo ser a de superestimar a imagem que fazemos de nós mesmos e assim projetar-nos como heróis de um novo tempo a ser parido das massas. Zizek, entendo, alertava-nos do risco de nos apaixonarmos por essa auto-imagem, o que poderia comprometer o próprio novo tempo pelo qual lutamos junto às massas.

Nessa linha, acredito que muito desse “apaixonar-se por si mesmo” convive com uma confusão entre duas espécies de seres políticos: a massa e base. E a confusão de uma coisa com a outra pode ser fatal.

Ao julgarmos que dirigimos uma base, estando na verdade à frente de uma massa – por definição, e a princípio, desgovernada e indirigível –, corremos o risco de superestimar o potencial das mobilizações em favor daquilo que defendemos, o que só ocorreria se as massas fossem, ao menos em boa parte, bases.

Essa suposição de bases onde na verdade há massas convive com o apego a uma imagem heróica de nós mesmos, em vez do apego ao trabalho duro e paciente de construir uma base, trabalho esse que é o doquadro político. Mas o herói crê que pode substituir esse trabalho árduo com a sua personalidade brilhante. Crê que sua exposição relâmpago da teoria será fascinantemente absorvida pelas massas, num “insight”, ou que se isso não bastar sua retórica arrebatadora as convencerá. Mas isso não passa de profundo apego a própria imagem exaltada à condição glamourosa de herói.

Às massas, a esquerda deve contrapor suas bases. E ao herói, o quadro socialista. A empatia do quadro, diversamente daquela do herói, não resulta da identificação espontânea, instantânea e puramente carismática. É uma relação de confiança costurada em médio e longo prazos. É calcada no sucesso da luta organizada, permanente e unitária por melhores condições de vida e existência para as classes dominadas.

Se o herói dirige imediatamente as massas, o quadro, por sua vez, dirige primeiro as bases. E, só então, através delas, dirige também as massas. E isso o faz não em razão do volume de sua base, que será sempre menor do que o dos massas. Na verdade, o quadro dirige as massas através da disciplina de sua base, suficiente para submeter aquelas a uma direção mais ou menos consistente. Talvez nesse sentido, e apenas nesse, oquadro venha a ser um dia também um herói, mas já bem diverso daquele típico herói do imaginário fantástico, que prescinde do trabalho árduo e paciente. Assim o foram Lênin e Mao, por exemplo, verdadeiros quadros-heróis.

Mas em regra, e é isso o que nos importa notar, o herói é uma fantasia louca das massas. Já o quadro é a autoridade experimentada das bases. O herói é o produto dos valores “universais” do senso comum hegemônico: é esse próprio senso comum condensado e encarnado magicamente numa pessoa. O quadro, no entanto, é o resultado de um novo senso comum contra hegemônico.

 

As bases e as massas: diferentes seres políticos

 

Pode-se distinguir ao menos cinco espécies de seres políticos: (1) a massa, (2) a base, (3) o militante, (4) o quadro e (5) o dirigente. Tais tipos de seres políticos não são, naturalmente, castas hinduístas. Todos podem passar de um tipo ao outro, do primeiro ao quinto ou do quinto ao primeiro. Pode ser, também, que alguém ocupe simultaneamente duas ou mais posições, a depender das mais variadas razões. Neste texto, vamos nos focar em diferenciar a base da massa, a fim de que isso possa iluminar um pouco nossa atuação nas manifestações atuais. E dos dirigentes, que nada mais são do que os quadros dos quadros, nem trataremos.

Quem é, então, a massa? É a multidão sem direção consciente. Mobilizada ou não, a massa tem objetivos difusos, contraditórios e voláteis. É desorganizada e não pensa estrategicamente. Não constitui um corpo mais ou menos definido de fundamentos e objetivos, coerentes entre si. Age no calor do momento, quase sempre de forma espontânea, e movida por razões não raro contraditórias.

As massas não estabelecem uma relação orgânica com seus líderes. E pior. Podem até não admitir líderes. Ou se admitem, eis que de repente podem voltar-se contra eles para constituir nova ou nenhuma liderança.

Imersas no senso comum, que em grande parte se confunde com o pensamento hegemônico, as massas tem referências das classes dominantes e das classes dominadas, referências de direta e de esquerda. E, sem refletir, as supõem conciliáveis.

Por conta disso tudo, as massas são por definição massas de manobra. E, em nossa opinião, é esse o caso das massas que estão nas ruas.

Já não é nenhuma surpresa constatar contradições absurdas nas pautas que aventam. Por exemplo, querem serviços públicos de maior qualidade e reclamam dos altos impostos. Mas como haverá serviço público sem forte tributação? É um mistério sobre o qual as massas não se debruçam.

Outro fato curioso. As massas em questão rejeitam os partidos. O problema não seria tão grave se se tratasse unicamente da rejeição do logo partidário, em nome da independência do movimento. Ou da rejeição de algum partido em particular, como o faz a oposição ao governo petista, ou mesmo da rejeição dos fins e da forma de organização denominada “partido”, como o fazem os anarquistas organizados. O que as massas agora atuantes rejeitam é A idéia de partido, ou ao menos UMA idéia fundamental subjacente aos partidos e também às organizações políticas anarquistas. E essa idéia consiste em, primeiro, demandar daqueles que ocupam o poder político que façam determinadas reformas e, em segundo lugar, que as façam sob pena de que o próprio poder político seja deles arrebatado por quem as demanda. Assim, melhor dizendo agora, as massas rejeitam a idéia de Política. Não querendo se igualar a quem hoje ocupa o poder político, rejeitam a própria Política. Caem assim num paradoxo histérico. Dizem aos governantes: façam por mim o que eu quero, mas não me peçam para que eu mesmo faça, ocupando seu lugar! Julgo ser essa a mais grave contradição irrefletida das massas agora em movimento.

Não é possível listar exaustivamente as pautas que estampam os cartazes. Mas é fácil perceber o quão desconjuntada elas são, especialmente em temas existenciais, como a liberalização de drogas ou de temas afetos à homossexualidade. Também há quem peça o retorno da ditadura e há quem peça democracia direta. Uma confusão sem fim que se agrava com a volatilidade das pautas: da redução da tarifa em alguns centavos para, sem mais nem menos, o impeachment de Dilma.

E quanto à direção dessas massas, ninguém as sabe.

Mas é certo que, quem quer que seja a direção imediata da massa, nunca estará numa posição confortável, seja essa direção de direita ou de esquerda, em favor das classes dominantes ou dominadas. Pois assim como é volúvel com as pautas, é volúvel com suas eventuais direções. No caso atual, por exemplo, as massas rejeitam qualquer liderança que em nome delas possa falar. Levam ao absurdo o argumento autonomista e abolem a própria representação política. Abrem margem, assim, para serem lideradas pela própria grande mídia, também presente nas redes sociais, ou por outros que melhor expressarem o senso comum hegemônico, como talvez seja o caso dos mascarados Anônimos.

Não é tarefa fácil convencer a massa da necessidade de mobilizar-se nessa ou naquela direção. Uma, duas ou infinitas panfletagens na fila do ônibus ou na porta da fábrica não darão direção à massa. Nem omarketing de João Santana ou Duda Mendonça o farão. Talvez a Globo com seus panfletos televisionados o consiga mais ou menos, mas ainda assim por algum tempo apenas – não obstante isso já seja suficiente, é verdade, para causar um momentâneo mas desastroso deslinde –. Mas nós, a esquerda radical, não dispomos nem mesmo do aparato midiático e, ainda que dispuséssemos, nossa saída seria sempre a construção de uma base que seja forte o suficiente para submeter as massas a uma direção.

base surge da massa como o Davi (de Michelangelo) surge da pedra bruta de mármore. A base, fruto do trabalho duro e paciente, é a massa mobilizada de forma organizada, permanente e unitária, em torno de objetivos claros, estrategicamente escolhidos, mais ou menos coerentes e diretamente relacionados à vida concreta de uma massa em particular. É esse trabalho duro e paciente, do qual falou Zizek, que forma a base a partir da massa.

A relação com a base é, sobretudo, construída em torno de relações pessoais de confiança, de médio e longo prazo. Relações de amizade e camaradagem, pele na pele, ombro a ombro e cotidianas. Relações comunitárias cuja coluna vertebral é o objetivo comum de transformar a realidade concreta em melhores condições de trabalho e existência.

base não é, portanto, fruto de um mero convencimento intelectual súbito – como um insight – da necessidade de se mobilizar por um objetivo. Alguém que compreenda essa necessidade pode, perfeitamente, não agir de acordo com esse entendimento por covardia ou comodismo.Por outro lado, a base também não é fruto do mero entrar em ação ou ir pra rua. As massas agem não raro por puro oportunismo ou pelo desejo desenfreado e desorientado de destruição de tudo. No primeiro caso, a pessoa sabe, mas não age. No segundo, ela age, mas não sabe. E esses são os dois comportamentos típicos das massas mobilizadas ou não.

Assim, a base surge de algo mais do que o convencimento teórico, do que um panfleto, uma palavra de ordem, uma fala de retórica inigualável ou uma peça de marketing dirigida às massas. Surge de algo que não pode ser apreendido numa exposição, num simples diálogo. Também não surge, por outro lado, do simples fato de colocar-se nas ruas para protestar contra o que quer que seja uma vez ou outra.  A construção de uma base é um processo de médio e longo prazo em que se edifica um novo um senso comum, contra-hegemônico, que é um vínculo que começa como resposta organizada a uma necessidade concreta das massas e termina com o reconhecimento da autoridade moral do quadro socialista, em quem a base passa a confiar.

base, para ser apenas base, não precisa apreender a totalidade da teoria que move o quadro socialista. Precisa compreender, tão somente, a necessidade de se mobilizar e agir de forma consistente, organizada, unitária, permanente e dirigida ao fim de que suas necessidades concretas sejam satisfeitas. Nesse processo, um novo senso comum contra hegemônico surge a partir da vivência comunitária construída para realizar esses objetivos concretos. E esse novo senso comum supre a necessidade de que a base venha a conhecer a totalidade da teoria para só então agir decididamente. Uma analogia, se o leitor permite, nos ajudará a compreender o senso comum que sustenta a base.

Quando um cristão depara-se com um ateu munido de argumentos científicos, os mais consistentes, para negar a existência de Deus, o cristão médio embaraçado não encontra resposta à altura e aparentemente perde o debate. Não obstante, permanece seguro de sua fé. E o que o sustenta essa insistência? A certeza que ele tem de que, embora ele não possa, o padre, o teólogo ou o pastor possam oferecer uma resposta teórica à altura para o ateu científico. Ademais, o cristão médio pensa: todos com os quais convivo crêem como eu, porque estariam todos errados? Impossível (!), ele pensa. E a isso acrescenta o fato de que a comunidade (daqueles com quem partilha a crença) organiza melhor a sua vida, o que não ocorreria se não participasse dessa comunidade. É essa a força do senso comum.

base, da mesma forma, se constrói a partir de um senso comum contra hegemônico, sustentado pela força da comunidade dos companheiros de luta e pela autoridade moral – ou teórica – do quadro. E aqui, com a licença do leitor, uma outra analogia para completar o raciocínio.

Gramsci (em O materialismo e filosofia de Benedetto Croce) vislumbra o fato de que a Igreja Católica, assim nós socialistas hoje o fazemos, enfrentava um desafio muito semelhante ao ter de conciliar (em seu interior) os intelectuais e os simples, sem dissolver o corpo unitário em duas religiões, uma para os simples e outra para os intelectuais[2]. Nesse sentido, temos algo a apreender com a Igreja medieval, por mais estranho que isso soe à primeiro vista. Claro que não se trata da perseguição inquisitória, talvez como o quisesse Stalin, mas no sentido de unir, num único corpo, intelectuais e simples, ambos compartilhando uma doutrina comum, apesar de sua diferenças. Os intelectuais, diz Gramsci, compreendiam a necessidade do corpo unitário por compreenderem teoricamente, e à exaustão, digamos, a lógica da doutrina. Já os simples o faziam por conta da experiência comunitária e da organização concreta da vida proporcionada pela doutrina corporificada na Igreja, além de confiarem em seus líderes teóricos a tarefa de rebater os líderes intelectuais ou morais adversários. Mas Gramsci não pára por aí. Sugere ele que a distância entre os simples e os intelectuais deve ser sempre provisória e apontar para o seu desaparecimento, sob pena da força da doutrina dos intelectuais, que é o seu enraizamento nos simples, desaparecer e se tornar um senso comum elitista, isolado e piorado.  Diz ele, ipsis literis:

 

Talvez seja útil distinguir “praticamente” a filosofia do senso comum, para melhor indicar a passagem de um momento ao outro. Na filosofia, destacam-se notadamente as características de elaboração individual do pensamento; no senso comum, ao invés, as características difusas e dispersas de um pensamento genérico de uma certa época em um certo ambiente popular. Mas toda filosofia tende a se tornar senso comum de um ambiente, ainda que restrito (de todos intelectuais). Trata-se, portanto, de elaborar uma filosofia que — lendo já uma difusão ou possibilidade de difusão, pois ligada à vida prática e implícita nela — se torna um senso comum renovado pela coerência e pelo vigor das filosofias individuais. E isto não pode ocorrer se não se sente, permanentemente, a exigência do contato cultural com os “simplórios”.[3]

 

            Em suma, a força da filosofia dos quadros consiste em tornar-se um senso comum contra hegemônico na base. Não é a exposição científica do pensamento marxista e socialista (pelo intelectuais) o que assegura a conformação da base nos simples, embora esse trabalho (promovido pelos quadros) de educação no marxismo e no socialismo seja imprescindível. Mas é a convivência comunitária permanente, sempre orientada para resolução da vida concreta, o que dará corpo à base, em torno dum novo senso comum. É esse trabalho duro e paciente, de organização das massas dominadas a fim de que lutem para melhorar sua vida concreta, que trará à luz o Davi ainda escondido no mármore bruto.

            De nada adiantaria, portanto, ter razão enquanto quadro, conhecendo a fundo a doutrina marxista e socialista, mas não ser reconhecido como autoridade intelectual e moral por uma base. Nenhuma exposição brilhante ou fala comovente trará as massas para a base sem o trabalho duro e paciente, consubstanciado na convivência comunitária, a partir da luta concreta. É somente isso o que, além da base, produzirá a confiança necessária para que se difunda o ideal socialista e a necessidade de ampliar a luta de uma questão muito concreta – como a melhoria dos salários num caso, a conquista da terra urbana ou rural noutro – para o objetivo de transformar toda a sociedade, abraçando solidariamente as lutas de outros oprimidos. Trata-se de um avanço na consciência que transformará a base em militância. O militante tem já a compreensão da necessidade de ser solidário com as demais lutas e de uni-las numa luta conjunta direcionada ao poder político e econômico dominante. Se a base luta apenas pela sua necessidade imediata, o militante luta por isso e pela necessidade imediata de outros que não a sua. E se o processo se concluir, o militante virá a ser também um quadro, tornando-se ele mesmo um difusor da tradição marxista e da causa socialista.

Num momento de relativa crise política, como este em que vivemos, em que a direita busca se apropriar da mobilização das massas desorientadas para impingir nela seus objetivos, a esquerda socialista deve mobilizar sua base, tornando-a militante. Só a força das bases – organizações de estudantes e sindicatos, associações de moradores de favelas e vilas, ocupações urbanas e rurais, organizações de defesa das liberdades existenciais etc. – unidas pela solidariedade militante pode, seguramente, impactar sobre as massas e direciona-las à esquerda. Se não o fizermos alguém o fará e então seremos vítimas da história e só nos restará lamentar o tempo perdido e os retrocessos conservadores.

base, que já confia em sua direção de esquerda, e não as massas diretamente, são a saída para vencer a luta contra a direita na disputa pelo rumo dessas mesmas massas mobilizadas hoje numa luta hiper difusa.

Mas e se nossas bases são pequenas e não possuem a força suficiente para impactar e dar os rumos corretos às massas sublevadas? E se o petismo e seus aliados não mobilizarem aquela que, em parte, ainda é sua base – CUT, UNE, MST, entre outros –? E se essas bases do petismo estiverem sobremaneira enfraquecidas pelos 10 anos do frustrante governo também petista? E, pior, se o PT mobilizá-las não para inflexionar o governo à esquerda, mas para manter a mágica “governabilidade” em prejuízo do caráter mais progressista que eventualmente as manifestações possam tomar?

Um parêntesis se faz necessário aqui. É mais do que certo que a base tradicional do petismo não pode em hipótese alguma ser ignorada, por mais reduzida ou adormecida que esteja. Não só podem, como devem ser mobilizadas, especialmente se considerarmos a ainda mais minúscula (e não raro maximalista[4]) base produzida pela esquerda radical recente, várias vezes atolada em esquerdismos como os que tem sido denunciados por Zizek[5]. E, obviamente, essa aproximação com aquela base não pode atropelar os quadros (petistas ou não) que ainda as dirigem, especialmente os quadros populares do campo e da cidade, forjados em décadas de luta. É, ademais, um erro crasso e anti-marxista ignorá-los presumindo sua subserviência cega e acéfala ao governo petista, como o é também um grave erro colidir frontalmente com aqueles muitos que já se renderam. Para levar a cabo essa disputa das bases tradicionais do petismo e aliados, portanto, duas coisas são imprescindíveis: primeiro, que nos aproximemos dos quadros radicais que as dirigem e, segundo, que com paciência e estratégia enfrentemos os demais, já rendidos, inclusive com o apoio daqueles quadros radicais. Naturalmente, para que isso seja possível, também a oposição ao governo petista não pode se confundir com oposição ao petismo, ainda radical nalguns redutos. E mesmo o governo petista não pode ser de todo descartado, pois contém elementos que devem ser defendidos, a exemplo da “distribuição” de riqueza que fez, para citar um tema polêmico[6]. E ainda, não se pode responsabilizar o governo petista por todas as mazelas, afinal o poder não se resume ao governo executivo federal – está também nos outros poderes, na economia e na mídia –. Fecha o parênteses.

Para piorar, a luta atual, além de muito massiva, é muito difusa e tem se convertido (por parte da direita tucana e midiática) numa luta pela desestabilização pura e simples do regime petista. Se correrá à direita ou à esquerda, ninguém o pode dizer ainda com certeza. E isso dependerá, em grande parte, do que a esquerda fizer a partir de agora para dirigir as massas ainda desorientadas.

Nessa situação, é necessário, de um lado, que as bases já existentes sejam mobilizadas, tornando-as militantes para disputar os rumos dos eventos atuais; de outro, é preciso construir novas bases, a partir dasmassas atualmente mobilizadas. Mas esse trabalho direto com a massas, sem a mediação da base, é muito mais árduo, e arrisco dizer, uma verdadeira roleta russa. Afinal, como temos visto, tem-se voltado também contra esquerda organizada. Nesse sentido, o próprio trabalho com as massas, pela esquerda, pode preparar um caldo que será apropriado pela direita, de modo que a esquerda pode estar cavando a própria cova, engrossando e endossando mobilizações que adquirirão um caráter reacionário.

Nesse sentido, o esforço imediato de disputa política dessas massas deve ser bastante cauteloso. Se não há tempo nem espaço para construir as bases pelo método duro e paciente, é preciso por outro lado não se iludir com as massas e tampouco com a fantasia do líder herói que elas demandam. Nosso trabalho deve se limitar a estabelecer pautas muito bem definidas que melhorem sua condição concreta de vida, organizando-as para tanto, estabelecendo com elas uma relação de confiança e, a partir disso tudo, mobilizá-las como militantes, e assim disputar com força a direção da totalidade das massas. Se quisermos dirigir diretamente a totalidade dasmassas, além de não conseguirmos, podemos fomentar uma desestabilização política que, neste momento de pouca ou nenhuma base, só nos desfavorece.

Prefiramos assim o trabalho duro e paciente. Prefiramos ser quadros a heróis, a exemplo de Lênin e Mao.


[2] Simples nada mais são do que as classes dominadas, geralmente deseducadas, e “dirigidas” pelo senso comum hegemônico. Os intelectuais, por sua vez, são a figura do quadro político.

[3] GRAMSCI, em Concepção Dialética da História. 3ª Ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978, p. 18.

[4] Maximalismo é o vício oposto ao etapismo. O primeiro, porque consiste em exigir tudo e já, transforma-se numa forma de obter nada nunca. O segundo, embora pelas razões opostas, consistentes em exigir o mínimo e sempre adiá-lo, chega àquele mesmo lugar.

[5] Confira-se também o texto “Resistir é capitular”, disponível em http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-16/luta-de-classes/resistir-e-capitular.

[6] Distribuição assistencialista, é verdade, mas que tirou cerca de três dezenas de milhões da pobreza nos últimos 10 anos.

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